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quarta-feira, 1 de outubro de 2008

PASSEIOS A TRÁS-OS-MONTES

TEXTO NÃO PUBLICADO
Como estávamos em Abril e era o fim-de-semana da Páscoa – prolongado como é hábito para a generalidade dos portugueses – marquei um dia de férias para a Segunda-Feira seguinte, e mais prolongado ficou. Por estar a precisar de carregar energias e desanuviar a cabeça, meti-me à estrada mais a Ana, a minha mulher, e partimos à descoberta de uma região ainda desconhecida para nós: o nordeste de Portugal. As chuvadas que sabíamos ir enfrentar não nos demoveram de fazer a viagem, e no fim também acabaram por não deixar qualquer réstia de arrependimento. Durante quatro dias, e ao longo de 1200 quilómetros, nós os dois e a Wild Star libertámo-nos da rotina para a ela retornarmos, porém mais ricos. É essa experiência – ainda que singela – de fuga e contemplação que quero revisitar hoje, partilhando-a com os nossos leitores.

Logo de manhã cedo, e com a moto carregada de véspera, fizemo-nos à estrada. Porque considero incomparavelmente mais atractiva a paisagem do Oeste, virei costas à A1 e optei pela A8 no percurso que me levaria até Leiria. Como aprecio rolar entre os 100 e os 120 km/h, a jornada fez-se calma e docemente, sem pressas nem sobressaltos. Dava para ir sentindo a brisa fresca na cara, impressão que há já alguns meses não experimentava, pelo menos de forma tão intensa, e que sempre produziu em mim um efeito deveras terapêutico.

Concluído o inenarrável IP3, o primeiro objectivo desse dia era ir almoçar a São Pedro do Sul. Por volta das 17:00h, e de novo na estrada, começaram os primeiros salpicos do fim-de-semana. Em cinco minutos depressa se tornaram numa valente tromba de água. Aproveitámos a protecção de um viaduto para estacionarmos a moto na berma. Retirámos os fatos de chuva dos alforges, e com um pouco de ginástica lá os vestimos por cima das calças e do blusão de cabedal. Estavam estreados!

Ao chegarmos a Vila Real, e sem que nada fizesse prever que a chuva abrandaria, fomos obrigados a estacionar durante vinte minutos para deixar passar a procissão de Sexta-Feira Santa. Debaixo da copiosa chuvada, entabulámos conversa com um gentil agente da PSP que nos foi informando sobre os pontos de interesse da cidade. Mas num ápice a conversa resvalou, como não podia deixar de ser, para as motos. Motociclista no seu trabalho, mas também fora dele, foi-nos revelando, com toda a naturalidade, o carinho que tem pela sua BMW de serviço, a qual, nunca terá conhecido outro condutor que não ele próprio. Já no conforto do hotel, reparámos nos dois imponentes elementos da natureza que tínhamos como vizinhos: a Serra do Marão e a Serra do Alvão. Praticamente sem intervenção do Homem, os nossos olhos apenas encontravam Natureza. Magnífico!

No percurso que nos levou até Mirandela acabei por me divertir imenso enquanto conduzia. O IP4, igualmente envolto em polémica, concede-nos uma profunda comunhão com o ambiente que nos circunda. Talvez por ser Sábado de Páscoa, cruzei-me, no máximo, com uns três ou quatro veículos. A aragem fresca da manhã a bater-me no rosto, as gotículas de chuva que teimavam em fazer-se notar, e a quietude daquele planalto verde, tornaram a viagem muito agradável.

Em Mirandela percorremos a cidade de uma ponta à outra. Estivemos por lá cerca de cinco horas. Almoçámos e fizemo-nos de novo ao caminho. Queríamos chegar a Bragança antes de anoitecer. No entanto, queríamos fazê-lo nas calmas, tal como habitualmente.

Terminado o “check-in” no hotel, desmontei os alforges, desejei um bom descanso à W*, e fomos passear pela cidade. A primeira impressão foi muito boa. Como cartão de visita avistámos logo o moderno Teatro Municipal de Bragança. A configuração da fachada remete-nos para a analogia com um ecrã plasma, daqueles que gostaríamos de ter na sala de estar. Outra conotação é a, não menos óbvia, boca de cena, a qual confere a identidade necessária a este edifício público. Pena é que a chuva nos tenha impedido de tirar fotografias.

No dia seguinte, Domingo, encetámos uma incursão às muralhas da fortaleza. Invariavelmente debaixo de chuva. À saída, esperava-me uma rampa íngreme que entroncava lá no fundo com uma estrada local. Como estava a chover intensamente, e o piso era feito daquela pedra muito polida, mesmo apesar de todas as cautelas, a roda da frente bloqueia a meio da descida, tendo a moto ficado imobilizada somente no começo da estrada alcatroada. Ainda hoje não percebo como este incidente não resultou em queda…

Para a frente é que é caminho, por isso já só pensávamos na belíssima posta mirandesa que iríamos degustar em Miranda-do-Douro. Mais uma vez o percurso rasgava o planalto transmontano proporcionando-nos momentos belíssimos. Era impossível não resistir à tentação de parar a moto para contemplar o silêncio e a paisagem.

Chegados ao destino, mesmo à hora da missa, fomos à descoberta do centro histórico. Nessa altura deparámo-nos com uma das mais belas vistas sobre o rio Douro. Lá em baixo, no fim de uma enorme ladeira rochosa, serpenteava o rio, sempre sereno. O cenário quase que nos fazia acreditar que estávamos noutro país. Pura ilusão. Era o nosso.

Confesso que depois do requintado repasto a que nos propusemos, a última coisa que me apetecia era arriscar um movimento. Mas como tinha mesmo de ser lá, seguimos em direcção a Freixo-de-Espada-à-Cinta. É nesta altura que surge a maior prova de perícia (e paciência!) a que o mototurismo me sujeitou. A EN221 estava em obras. Sem percurso alternativo, a única hipótese foi seguir durante 20kms por essa mesma estrada, a qual para além de não ter alcatrão, estava completamente esburacada, empoeirada e enlameada. Esses penosos 20kms foram feitos integralmente em 1ª, com raríssimas tentativas para engrenar a 2ª, as quais rapidamente me obrigavam a retornar à mudança anterior. Esta foi a única maneira de conduzir uma moto de 350 quilos, que com passageiro, condutor e carga, pesaria, no conjunto, cerca de 500 quilos! Os caros leitores nem imaginam o alívio que senti quando cheguei ao fim. Com outra moto até poderia ter sido excitante. Agora com esta…foi para esquecer.

Paragem breve em Freixo, e toca a rumar até à Guarda para pernoitar. Seguimos pela margem do Douro. Simplesmente arrebatador. Aquela estrada marginal, o rio, e a imensidão do verde fazem-nos sentir pequenos. Logo após Barca d’Alva esperavam-me alguns quilómetros de estrada de montanha com curvas bem agradáveis. Depois de umas quantas roçadelas com o poisa-pés no asfalto (para compensar a tensão da marcha lenta no troço em obras), já estávamos na Guarda.

Chegados à cidade, perguntámos mais uma vez a um polícia onde poderíamos encontrar alojamento, e sem hesitar, foi-nos recomendada a Residencial Santos. O que é que este empreendimento tem de peculiar? Bom, para além da hospitalidade do seu proprietário, não é todos os dias que uma parte da muralha da cidade nos entra, literalmente, pelo quarto adentro. Na verdade, este antigo (mas bem recuperado) edifício foi construído de forma a integrar parte da muralha da cidade. Então, no seu interior, o paredão está omnipresente, seja nos corredores, nas salas, ou nos quartos. Às tantas já não percebemos se é ele o intruso, ou se porventura somos nós…

Na Segunda-Feira, e já sem chuva, principiámos o derradeiro regresso a casa. Rolámos pela A23 em direcção a Castelo-Branco. Fazíamo-lo com um sorriso de satisfação no rosto, bem ao jeito de quando somos crianças e andamos a passear de bicicleta, descobrindo as delícias que esse brinquedo nos reserva. De cabeça refeita, mas de corpo moído, senti-me bem por ter conhecido um pouco mais do meu país, e por ter reforçado o elo de ligação que me une à moto. Acreditem, é tempo bem empregue!






Nota final (em jeito de desabafo): E foi esta a última viagem que fiz aos comandos da minha XV1600A. No fim-de-semana seguinte um condutor de um automóvel ligeiro adormece ao volante e embate violentamente na moto, que, por ironia do destino, até estava estacionada na berma. Felizmente os ferimentos foram ligeiros, tanto para ele como para a minha mulher. A mim, tirando o enorme susto, não me aconteceu nada. Quanto à moto, tudo nela ficou destruído com excepção do motor. Se algum dia esse V-Twin irá abandonar os destroços onde se encontra para voltar a dar vida a uma estrutura toda ela renovada, essa é uma decisão que, a acontecer, dependerá somente do poder judicial. O que tiver de ser será. Lá terei de fazer das tripas coração e reaprender a velha lição da espera. Mas apesar do problema, sabe-me bem olhar para trás e relembrar os bons momentos que desfrutei com a sempiterna Wild Star. De igual modo, gosto que todos quantos andam de moto continuem a partilhar comigo diariamente as suas alegrias, as suas conquistas, as suas descobertas. Mas sobretudo, dá-me muita força acreditar que no futuro tudo será diferente. Tudo será melhor. Hei-de voltar a andar na minha moto, e nessa altura outras viagens se seguirão. Vemo-nos aí na estrada…quando essa altura chegar.
© Todos os direitos do texto e fotos estão reservados para Hélder Dias da Silva.
© General Moto, by Hélder Dias da Silva 2008

domingo, 14 de setembro de 2008

ATÉ FARO NA VIRAGO 535 – A MINHA PRIMEIRA VIAGEM, NA MINHA PRIMEIRA MOTO

TEXTO NÃO PUBLICADO
Diz o povo que o primeiro amor nunca se esquece. Pois eu acrescento de minha lavra, que nem a primeira moto nem a primeira viagem.

Em 2000, com oito meses de carta e sete de moto, eu e o meu compincha de muitos sonhos e aventuras, o Hugo, rumámos a Faro para visitarmos a concentração internacional. Ele na Suzuki RF600 e eu na Virago 535.
Como a moto dele andava muito mais que a minha, resolveu dar-me a dianteira para que fosse eu a impor o ritmo da viagem. A minha experiência em viagens pelas “nacionais” era nula. Por outro lado a moto também não ajudava. Travava mal, o ângulo de viragem era limitado, os pneus demasiado estreitos e a iluminação muito fraca. Daí que – e sublinho que a todas as limitações da máquina se juntava a minha inexperiência como mototurista – eu, por inúmeras vezes, trava e corrigia as trajectórias a meio das curvas, especialmente as da serra, já a chegar ao Algarve, às tantas da noite. Como a estrada não estava iluminada eu tentava adivinhar a curva, e a meio tinha de compensar a inserção, ou porque a moto não “queria” curvar, ou porque eu supus a curva mais larga e, afinal, era bem mais apertada. O Hugo ainda hoje diz que teve bastante medo pois estávamos constantemente a ser ultrapassados por caravanas de “erres” que desenhavam razias aos que circulavam mais devagar (nós!), portanto, com as minhas correcções “na hora” as contas podiam sair-lhes(nos) furadas.
Já em Faro, foi a loucura total. Belo fim-de-semana. Tanto de dia como de noite. Bom ambiente e muita risada, como daquela vez em que se destacou da multidão uma voz, num breve instante de pausa do apresentador seguida de silêncio da assistência (antes da “Miss T-Shirt” molhada), que bradou aos céus “Vai fazer b%*@#&s a cavalos” logo sucedida de uma gargalhada colectiva de milhares e milhares de pessoas.
Bom, mas agora um breve parêntesis sobre a moto.

VIRAGO 535

Foi amor à primeira vista, por isso mal a vi, comprei-a. Era de 1994, mas parecia mais nova e com menos quilómetros.

Mas, quando eu saía com ela, nunca sabia bem o que me ia acontecer. Uma vez foi o cabo de acelerador que partiu. Tentei-me convencer que podia ser “normal”. Depois, em plena CREL, o rectificador de corrente avariou, e eu nem assistência em viagem tinha. Valeu-me o Zé que largou o trabalho nessa tarde e veio em meu auxílio (obrigado ma men). Vinte contos resolveram o sarilho, ao que parece muito comum nas 535. Depois tive a triste ideia de lhe instalar um alarme. Ainda hoje não percebo a relação, mas desde então ela simplesmente não podia levar com água (chuva e lavagem) pois isolava sempre as velas. Perdi a conta às vezes que foram substituídas (algumas a muitos quilómetros de casa). No dia em que removi o alarme, tudo ficou como sempre deveria ter estado. O mecânico na altura explicou-me que tinha a ver com a massa…e mais não sei o quê…e eu “sim sim, tem a ver com a massa que me sai mas é do bolso”! Havia também uma fuga no colector do escape que me salpicava as calças com muitos pontinhos pretos. A resolução passava por montar outros escapes. Depois tive mesmo de substituir a corrente de distribuição e afinar as válvulas. O mecânico da Motopeças – um tal de Rui – teve a moto três (!!!) semanas na oficina e de cada vez que eu lá ia para levantar a moto, ela estava com um trabalhar completamente estranho. Vibrava o triplo, aquecia num instante, o ralenti era incerto, tinha perdido potência e afogava facilmente. Ele desculpava-se sempre dizendo que não percebia, que ela já lá tinha entrado assim, que era por ser velha e com muitos quilómetros (em seis anos nem aos cinquenta mil tinha chegado), e que eu a deixasse ficar lá mais uns dias para ele ver o que se passava. Resultado, ao fim de três semanas paguei setenta contos, levantei a moto, e fui deixá-la de seguida na extinta NRC Motos, onde as mãos hábeis, a inteligência e o ouvido atento do Luciano Firmo prontamente desvendaram o mistério: as novas correntes de distribuição tinham sido montadas ao contrário. Grande serviço do incompetente chefe de oficina da Motopeças. Bom, a Yamaha Portugal, à conta desta brincadeira toda, ainda teve de me devolver o valor da factura da NRC Motos. Afinal, eles é que resolveram a avaria causada pelos outros. Enfim…

Pese embora os azares, acho que este é um excelente modelo para um recém-encartado adepto do estilo cruiser se iniciar no aperfeiçoamento da sua técnica. É uma moto barata, económica, calma, e suficiente fiel ao estilo para o motociclista perceber se foi talhado para os “ferros” ou não.
O REGRESSO

Fui para lá com uma moto preta e vim de lá com uma moto castanha. Faz parte do pack “Concentração de Faro”. Tendo o regresso sido feito de dia, a viagem foi menos atribulada. Chegado a casa, exausto mas satisfeito, tive a certeza de que as maiores e melhores viagens da minha vida haveriam de ser feitas de moto. Ainda hoje penso assim.

Deixo-vos com as únicas fotos que tenho dessa viagem, e da moto. No ano seguinte ela passaria para outras mãos (creio que me entendem porquê). O mesmo aconteceria com a RF do Hugo, dois anos depois.

© Todos os direitos do texto e fotos estão reservados para Hélder Dias da Silva
© General Moto, by Hélder Dias da Silva 2008

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

VIAGEM A POMPEIA

Nº927 MOTOJORNAL Setembro 2005


Para quem realmente gosta de viajar de moto, oportunidades como esta constroem-se, saboreiam-se, recordam-se individualmente e, tal como agora, partilham-se, pois é também neste espírito de comunhão que a comunidade dos motociclistas constrói a sua riqueza.

Após um documentário exibido na tv sobre a catástrofe natural que se abateu sobre Pompeia no ano 79 d.c., o qual captou de imediato a nossa atenção, ocorreu-nos fazer deste súbito interesse um pretexto para utilizar-mos as nossas motos – a Yamaha Wild Star XV1600 de 2001 e o trike com motor VolksWagen Beetle 1200 cc de 1978 – numa viagem até esse lendário e sinistro destino.

Como impõe o bom senso, tratámos de fazer uma revisão completa às motos antes da partida. Houve ainda oportunidade para instalar alguns acessórios, ora daqueles que são inquestionavelmente úteis, ora daqueles que servem simplesmente para conferir à nossa montada um look mais personalizado. Tudo ficou operacional. Traçámos o percurso com a ajuda do Microsoft AutoRoute, e programámos todas as paragens. Tínhamos especial interesse, para além do nosso destino final, por Barcelona, e por todo o sul de França, região que, a bem da verdade, confirmámos ser bastante aprazível. Como éramos quatro, e estávamos pouco dispostos a acampar ou a dormir ao relento, a primeira por comodismo, a segunda por firme determinação, tratámos de reservar alguns hotéis de baixo custo onde iríamos pernoitar, pagando em boa parte dos casos, antecipadamente. Contudo, não foi preciso que soassem as 16h30 do primeiro dia de viagem, quinta-feira, para constatarmos não ter sido esta, afinal, uma ideia tão brilhante quanto julgávamos...


O dia 26 de Maio foi o escolhido para a partida. Palmela o lugar. Batiam as 07h30 quando os motores se ligaram, ávidos que estavam pela aventura dos quilómetros. Nessa altura, nós sentíamos no sangue o significado do refrão: “I’m on the road again”.

Passávamos então por Almaraz, que dista uns 200 quilómetros de Madrid, equipados a preceito dos pés à cabeça – o que aliás se recomenda – sob a égide de uns severos quarenta e dois graus, quando o trike ficou subitamente sem luzes, começou a soluçar, disparou uns raters e, acto contínuo, desligou-se. Os sintomas pareciam indiciar que o rectificador de corrente acabava de entregar a alma ao criador, o que mais tarde se veio a confirmar. Ainda era o de origem. Como consequência da anomalia a bateria também já era. Caramba, tinha de ser logo agora – pensávamos nós! Por sorte havia sido rebocado para uma oficina de pessoas qualificadas e honestas, que não se pouparam a esforços, mesmo fora de horas, para identificar e resolver a avaria.

Agora reparem que, com um problema destes logo no primeiro dia, todo o plano da viagem parecia ter ficado irremediavelmente comprometido. Mais, o dinheiro que já tínhamos gasto podia muito bem estar perdido. Para além disso, já era sexta-feira, e nenhuma casa de peças e acessórios, num raio de 200 quilómetros, tinha o rectificador de que precisávamos. Assim sendo, o pior dos cenários obrigava-nos a passar o fim-de-semana inteiro em Almaraz para, na melhor das hipóteses, retomarmos a viagem na segunda-feira. Esta perspectiva não era nada animadora.

Por acaso o Sr. Júlio, o proprietário da oficina (Talleres y Grúas Almarauto, a propósito), lembrou-se que conhecia um electricista que trazia sempre consigo um rectificador de corrente antigo para testes. Experimentou-se a peça, e não é que o trike acordou para vida! Para nosso alívio, acabaram por vender o rectificador de corrente ao Hugo, tendo sido acordado entre eles um preço bastante justo. Quanto não vale nestes casos a compreensão e disponibilidade das pessoas…

Às 13h00 estávamos de novo na estrada, e com uma ânsia desenfreada de devorar quilómetros, tal não tinha sido o susto. Por isso, era forçoso que chegássemos a Barcelona nessa noite. Ou seja: tínhamos de percorrer 800 quilómetros num dia que já começava de tarde. Mas assim foi.

Porém, como um azar nunca vem só, a Wild Star fica sem luzes às 23h00 em plena auto-estrada A-2 (Saragoça - Barcelona), e para cúmulo, era uma noite sem luar. Não se via nada. Acho que nem os carros nos conseguiam ver, a mim e à Ana, ali parados na berma às apalpadelas à moto. Aliás, nem o Hugo e a Sílvia nos viram, pois só deram pela nossa falta uns 30 quilómetros mais à frente. Felizmente, e apesar da escuridão, lá consegui conduzir cautelosamente pela berma até à próxima saída, a cerca de uns 4 quilómetros de distância, e aí, com a luz das portagens, troquei rapidamente o fusível da iluminação geral, e seguimos viagem.

De resto, estes foram os únicos percalços técnicos que a jornada nos reservou. Daí em diante, tudo decorreu sem sobressaltos. Falhas, só mesmo os ataques de sono que me acometiam a seguir ao almoço, e que obrigavam o pessoal a parar para que eu pudesse olhar um pouco para dentro. Descobri que afinal sou capaz de dormir em qualquer sítio, como muito bem documentam as fotos…

A pressão dos pneus e o nível do óleo eram verificados todos os mil quilómetros, e se para a primeira era necessário proceder a ajustes, já para a segunda não foi necessária nenhuma reposição. É notável, sobretudo se tivermos em conta a provecta idade do motor que equipa o trike. Para tal contribuiu, também, a velocidade de cruzeiro adoptada: 100 km/h. Sendo que por vezes abrandávamos até aos 80 km/h, e noutras alturas, perdíamos a cabeça, e dávamos gás até aos 120 km/h. Tudo dependia da condição das estradas e, claro está, da nossa disposição. Já havíamos tido a nossa dose de pressa, agora só queríamos relaxar. Deste modo, os consumos verificados no trike cifraram-se algures entre os 8 e os 10 litros por cada 100 quilómetros. Na Wild Star a média ficou-se pelos 4,5 litros.


OUTROS FACTOS

O percurso adoptado na ida foi: Lisboa, Madrid, Barcelona, Nimes, Marselha, Toulon, Saint-Tropez, Cannes, Nice, Mónaco, Génova, Roma e Vaticano, Nápoles, Pompeia. O regresso fez-se pelo mesmo caminho, porém acrescentámos Florença, Pisa, Saragoça e Mérida. Aproveitámos também para conhecer as cidades que não pudemos visitar na ida (para lá pernoitámos numas e para cá noutras).

Em Espanha é de realçar o facto de podermos atravessar o país de uma ponta à outra sem termos de pagar portagens, e em estradas – as auto-vias – de fazer inveja, por exemplo, à nossa CREL, entre outras.


Já em França as portagens são um facto, porém existe um escalão específico para motociclos. Lá está, deve-se tratar de maneira diferente aquilo que é na verdade diferente. Parece-me que só assim está assegurada a tal igualdade que muitos fazem gala em apregoar, mas que poucos conseguem, no seu dia-a-dia, constatar. As auto-estradas estão bem conservadas, havendo até um esforço por torná-las agradáveis do ponto de vista estético, plantando e cuidando de árvores ou arbustos nas bermas e nos separadores centrais em toda a sua extensão. Em suma: percebe-se para onde vai o dinheiro. Ah, e são um povo muito civilizado a conduzir. Indiscutivelmente. Em França até há o hábito, que há muito se perdeu por cá, de todos os motociclistas se cumprimentarem quando se cruzam. É impecável circular por lá. E o cidadão francês é, por norma, muito gentil.

Quanto à Itália, também há portagens sim senhor, as auto-estradas em muitos casos são piores que as nossas, rolam-se muitíssimos – demasiados – quilómetros em túneis (o relevo é acentuado), o trânsito é intensamente caótico, e os italianos transpõem para a condução toda a barbárie e selvajaria, no fundo, toda a violência e brutalidade tão características dos tempos áureos do Império Romano. Em Itália chega a ser perigoso tentarmos cumprir as regras de trânsito como, por exemplo, parar num sinal STOP, pois corremos o sério risco de, pelo meio de umas quantas buzinadelas, sermos abalroados por alguém que não contava com a nossa paragem. Além disso, na berma chegam a circular três motos lado a lado, mesmo nas “barbas” da polícia.


Curioso também são as, por nós denominadas, faixas mutantes. Isto é, nas estradas existem tantas faixas de rodagem quantos sejam os veículos que lá consigam caber alinhados lado a lado. Quer isto dizer que a sinalização marcada no pavimento não conta para rigorosamente nada. É também frequente vermos motorizadas com 3 ou 4 pessoas, onde o condutor consegue a proeza de conduzir enquanto fuma um cigarro e fala ao telemóvel. Acreditem, só visto! Todavia, e apesar de tudo, a taxa de sinistralidade é menor que a nossa.

Atenção: num restaurante em Itália, supostamente em conta, fizeram-nos pagar 4€ por uma garrafa de água da torneira! E não é que nem pudemos trazer a bem-dita garrafa connosco. “Sodomizaram-me à bruta”, como diria o outro. Se lá forem preparem-se… eles não perdem uma.

Apesar das peripécias, Itália encanta. O seu peso na História da Humanidade é avassalador. Arrisco a dizer que não se nos varrerá da memória a sensação de estar diante do Coliseu de Roma, da Praça de S. Pedro, à beira da cratera do Vesúvio – que não está extinto, somente adormecido – ou das ruínas de Pompeia onde encontramos os moldes dos cadáveres daqueles que por lá tombaram numa impiedosa agonia (asfixiados e soterrados pelas partículas piroclásticas) e que, estando bem à frente dos nossos olhos, nos compelem ao silêncio em sinal de respeito.
Entre outras coisas, esta viagem deu para comprovar que o uso de veículos de duas rodas é um hábito enraizado em todas as grandes cidades. Mais que isso, ele é promovido pelo próprio Estado, que abdica de uma boa parte das suas receitas fiscais aquando da aquisição deste tipo de veículos, cria mais facilidades para a obtenção do título de condução e, como em Florença, determina uma enorme quantidade de estacionamentos apropriados para motos, alguns até que disponibilizam carregadores para motociclos e ciclomotores equipados com motores eléctricos. A população aderiu a esta cultura, e todos saíram a ganhar, desde a indústria do sector, ao ambiente, passando pelo próprio Estado, e por todos aqueles que vivem e se deslocam nas cidades. Pena é que por cá as coisas sejam bem diferentes. Mas cada um de nós tem a sua quota-parte de responsabilidade, quanto mais não seja, por não contestarmos, por não nos insurgirmos contra a incompetência e a imoralidade de toda uma classe política que é por nós legitimada e, ainda por cima, também por nós é sustentada.
Por princípio, num Estado de Direito, ou se preferirem, numa nação civilizada, essa classe de “ilustres personalidades” deveria exercer correctamente o poder que lhe foi concedido, com o fito de obter justiça, segurança, e de melhorar a nossa condição socio-económica e cultural. A realidade é que, ao longo das últimas décadas, a classe política fez por cair em descrédito. Está sistematicamente orientada para os seus próprios interesses, tanto os pessoais, como os das mais variadas corporações a que os seus membros pertencem, ou com as quais se relacionam. Na prática: estamos à beira do colapso num clima de total impunidade.

Em relação a custos, a viagem rondou os 2700€ por cada duas pessoas mais a moto. Desta verba, grosso modo, 1000€ foram para a alimentação, 1000€ para alojamento, e o restante para combustível, portagens, e despesas diversas.

DE NOVO POR CÁ

Bom, foi óptimo regressar a Portugal e perceber que o IVA tinha sido aumentado para 21 por cento. Para comemorar até parámos na Adega do Isaías em Estremoz, e refastelámos o estômago e a alma com os belos petiscos que por lá se servem. Afinal as saudades da “comidinha de casa” já se faziam sentir.



Posto isto, e após os 5813 quilómetros que nos levaram de ida e volta a Pompeia, o balanço é absolutamente positivo. É uma experiência a repetir, ainda que a um outro destino, não só pelo gozo que temos ao nos deslocarmos de moto, mas também pelas vantagens que se reflectem na carteira. Só deste modo nos foi possível passar 20 dias a viajar, conhecer 18 cidades, estando sempre nas nossas mãos o rumo que haveríamos de seguir, ao invés de despendermos o mesmo valor por um pacote turístico de 8 dias com vista para o mar e para as paredes do quarto.

Para terminar, a sugestão não podia ser outra: utilizem as vossas motas para viajar, partam à descoberta e partilhem as experiências. Como diz o “nosso” Jorge Palma: “Para quem ama a liberdade o importante é nunca parar”. Acima de tudo: divirtam-se!



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